quinta-feira, 15 de novembro de 2012

» vazio.



    Sinto o gelo da noite vaguear pelo meu corpo. Está vazio o meu quarto. Não de objetos, mas apenas vazio. Vazio do calor que emanava do teu corpo. Procuro pelos lençóis rasgados pelo vazio das mágoas esse teu calor, mas tudo o que eu encontro é o vazio. Sugador de pensamentos e esmagador de corpos. Vazio esse que cai sobre a minha pele ferida, que a faz perder a cor, perder o brilho. Esse vazio que cintila sobre os meus olhos, que lhes suga a pureza. Esse vazio mortífero e impiedoso. Esse vazio que mata, esmaga. Depois existe o silêncio. Silêncio que penetra pelos meus ouvidos a mais alta frequência e os rompe, deixando o som fora do meu corpo, inalcançável pela alma. A visão, essa desapareceu a muito quando a escuridão a tomou por completo. Não me resta nada. Estou a mercê de todo o mal que habita o meu quarto neste momento. a cada segundo que passa vou ficando mais ferido, mais invadido. Não são as feridas sob a minha pele que me magoam, mas sim as que estão cravadas mais fundo, na minha alma. Alma, essa pobre coitada que uma vez conhecera durante a minha ingénua infância. alma, essa velha amiga que foi corrompida e despedaçada por cada pessoa que ela própria acolheu no seu interior. Alma, essa pobre e doce parte de mim que já mais será a mesma. Corrompida, ensanguentada, ferida, exausta. Mas porque é que todo o mundo a quis ferir, mutilar, metamorfosear. Porque é que tudo mudou quando esse tudo parecia dar certo. Quando aparentava que a felicidade que habitava no meu sorriso era genuína, quando o dia-a-dia levava a sua melhor rotina, quando o dia era mais dia que noite, quando o coração era puro e sentimental. Porque teve tudo de mudar. Porque teve tudo de ser absorvido pela escuridão, pelo silencio e pelo mais vil e perecível dos vazios. Porque teve tudo de ir embora. Porque teve tudo de abandonar o meu corpo. Porque teve tudo de abandonar a minha alma indefesa.  Será por isso que não sinto nada neste momento ? será por isso que apenas o frio é o único calor que sinto, o silencio a única coisa que consigo captar, e o vazio a única coisa que consigo tatear ? será por isso que acabei assim, usado, traído, ferido, desprovido de sentimentos e sem qualquer capacidade de movimento ? são perguntas demais para mim esta noite.  Continuo imóvel perante o que ameaça romper de vez a minha sanidade, continuo impotente contra tudo o que me mutila constantemente. Tento procurar mais uma vez por ti, pelo teu calor que tão bem me fazia, pelo sorriso que fazia os meus olhos brilhar, e pelosolhar que fazia o meu rosto esboçar um sorriso perfeito. Mas desvaneceste na noite mais uma vez, abandonaste o meu quarto juntamente com toda a luz e calor que o habitava. Foste embora e eu deixei de funcionar, como um pequeno relógio sem peças que já não é senhor do seu tempo. Apenas foste e não pudeste voltar. E eu aqui fiquei.

    Sinto que foi desta. Que desta vez o vazio deu o seu golpe final sob o meu corpo levando com ele a minha alma. já não sinto dor. Sinto que o tempo parou em meu redor. Sinto tudo mais leve e mais fácil de suportar. Se calhar estou morto. Eu prefiro estar morto, do que voltar a encarar o mundo de novo. Mas e então que tudo acaba e volto a acordar no meu quarto, agora dominado pela luz da manhã, mas mais positivo, mas porém,  sinto-me igual. Ferido, ensanguentado, surdo, cego, petrificado. E sinto-me se novo dominado. Dominado pelo vazio.

Luís

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