Sinto o gelo da noite vaguear pelo meu corpo. Está vazio o
meu quarto. Não de objetos, mas apenas vazio. Vazio do calor que emanava do teu
corpo. Procuro pelos lençóis rasgados pelo vazio das mágoas esse teu calor, mas
tudo o que eu encontro é o vazio. Sugador de pensamentos e esmagador de corpos.
Vazio esse que cai sobre a minha pele ferida, que a faz perder a cor, perder o
brilho. Esse vazio que cintila sobre os meus olhos, que lhes suga a pureza. Esse
vazio mortífero e impiedoso. Esse vazio que mata, esmaga. Depois existe o
silêncio. Silêncio que penetra pelos meus ouvidos a mais alta frequência e os
rompe, deixando o som fora do meu corpo, inalcançável pela alma. A visão, essa
desapareceu a muito quando a escuridão a tomou por completo. Não me resta nada.
Estou a mercê de todo o mal que habita o meu quarto neste momento. a cada
segundo que passa vou ficando mais ferido, mais invadido. Não são as feridas
sob a minha pele que me magoam, mas sim as que estão cravadas mais fundo, na
minha alma. Alma, essa pobre coitada que uma vez conhecera durante a minha
ingénua infância. alma, essa velha amiga que foi corrompida e despedaçada por
cada pessoa que ela própria acolheu no seu interior. Alma, essa pobre e doce
parte de mim que já mais será a mesma. Corrompida, ensanguentada, ferida,
exausta. Mas porque é que todo o mundo a quis ferir, mutilar, metamorfosear.
Porque é que tudo mudou quando esse tudo parecia dar certo. Quando aparentava
que a felicidade que habitava no meu sorriso era genuína, quando o dia-a-dia
levava a sua melhor rotina, quando o dia era mais dia que noite, quando o
coração era puro e sentimental. Porque teve tudo de mudar. Porque teve tudo de
ser absorvido pela escuridão, pelo silencio e pelo mais vil e perecível dos
vazios. Porque teve tudo de ir embora. Porque teve tudo de abandonar o meu
corpo. Porque teve tudo de abandonar a minha alma indefesa. Será por isso que não sinto nada neste
momento ? será por isso que apenas o frio é o único calor que sinto, o silencio
a única coisa que consigo captar, e o vazio a única coisa que consigo tatear ?
será por isso que acabei assim, usado, traído, ferido, desprovido de
sentimentos e sem qualquer capacidade de movimento ? são perguntas demais para
mim esta noite. Continuo imóvel perante
o que ameaça romper de vez a minha sanidade, continuo impotente contra tudo o
que me mutila constantemente. Tento procurar mais uma vez por ti, pelo teu
calor que tão bem me fazia, pelo sorriso que fazia os meus olhos brilhar, e
pelosolhar que fazia o meu rosto esboçar um sorriso perfeito. Mas desvaneceste
na noite mais uma vez, abandonaste o meu quarto juntamente com toda a luz e
calor que o habitava. Foste embora e eu deixei de funcionar, como um pequeno
relógio sem peças que já não é senhor do seu tempo. Apenas foste e não pudeste
voltar. E eu aqui fiquei.
Sinto que foi desta. Que desta vez o vazio deu o seu golpe
final sob o meu corpo levando com ele a minha alma. já não sinto dor. Sinto que
o tempo parou em meu redor. Sinto tudo mais leve e mais fácil de suportar. Se
calhar estou morto. Eu prefiro estar morto, do que voltar a encarar o mundo de
novo. Mas e então que tudo acaba e volto a acordar no meu quarto, agora
dominado pela luz da manhã, mas mais positivo, mas porém, sinto-me igual. Ferido, ensanguentado, surdo,
cego, petrificado. E sinto-me se novo dominado. Dominado pelo vazio.
Luís
.
im here
ResponderEliminarEste comentário foi removido por um gestor do blogue.
ResponderEliminar